Nem todas as cidades são de pedra

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A cidade, quando feita de homem, língua e mulher, não fica só no osso. Não, ela é músculo e alma, excitáveis e contráteis, é porém uma especie de coração que se agita dentro de você a toda vez que andas na rua. A cidade é um refugio da memória onde o esquecer tem patente e permisão. È talves um caos, na verdade é o caos mesmo, uma mixtura de referentes, um espaço construido para que o amor e o desamor possan ter inumeras motivações para o combate e para a palavra que se faz cavalgadura de seus propósitos -sem a língua para nomear não existe o amor, não existe o desamor, também não o silêncio, não há projeto. A cidade feita de homem, língua e mulher, é o descalabro e ao mesmo instante a redenção. Mas lembre-se que é so isso quando é feita assim. Se for só pedra sobre pedra pode ficar núa e perecer diante o silêncio e o frio, pode sim ficar no osso, o nosso, e pesar como a laje de um túmulo para a qual ninguém registrou palavras nem memórias, uma simples pedra que ainda não é uma lápide.

A cidade foi e ainda é em mim a epifania. De lá vem esse trabalho fotográfico, esse olhar a cidade além dos cantos, no centro caótico da gente, no acontecer trémulo de seus dias fevrieis e da sua língua fundadora e harmoniosa. A cidade é poema e imagem no meu trânsito. É assim porque

Nem todas as cidades são de pedra

Alguas têm filhos de sangue

jardins de abóboras

casas de luz

Ruas que tremem na hora dos sonhos

tremem de amor e calam

Sempre que você transita nelas

ficam quetinhas

apenas sussurram

e olham de perto seus dias

mas você não percebe

Você quase nunca percebe

que nem todas as cidades são de pedra

que algumas são feitas de coração

e batem quando você vai embora.

Fechando o poema vem uma explicação talves desnecessária: O trabalho Nem todas as cidades são de pedra, as fotos sobretudo, aconteceu quando fiquei sabendo que tinha que deixar Brasília, ir embora após seis anos de morar lá. É, então, uma especie de homenagem à cidade que me acolheu com avidez e loucura, ainda que sempre com um toque de bom senso para me fazer comprende-la. O mesmo toque que eu di para ela desde a minha própria avidez e o meu próprio delírio. Só espero que ela me tenha comprendido também.